Água Viva (Edição com manuscritos e ensaios inéditos)
Água Viva (Edição com manuscritos e ensaios inéditos)
Regular price
255 kr
Regular price
Sale price
255 kr
Unit price
per
Taxes included.
Shipping calculated at checkout.
Couldn't load pickup availability
Esta edição especial da Rocco, destinada a se tornar fonte de referência, oferece uma rara oportunidade. Ao reunir pela primeira vez em um mesmo volume os datiloscritos de “Objeto Gritante” e a versão final de “Água Viva”, o leitor terá a possibilidade de quase meter-se dentro da cabeça de Clarice Lispector e avaliar como lidava a grande escritora na hora de suprimir, modificar e tornar definitiva uma obra em processo. Trabalho de gênio. E aqui uma palavra tão gasta pelo uso exagerado – gênio – cabe à perfeição.
Considerado o livro mais misterioso e autobiográfico de Clarice, “Água Viva” saiu do prelo em 1973. Mas somente na década de 1980, após a morte da autora, veio a público o fato de a obra ter sido intitulada, originalmente, “Objeto Gritante”. A descoberta se deu graças à tarefa de pesquisadores mergulhados no Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa, que guarda manuscritos, datiloscritos, documentos diversos e fotografias da escritora.
“É com uma alegria tão profunda. É uma tal aleluia. Aleluia, grito eu, aleluia que se funde com o mais escuro uivo humano de dor e separação mas é grito de felicidade diabólica. Porque ninguém me prende mais”. Quem lê as primeiras frases do romance (ou da novela, dada sua extensão), frases cheias de entusiasmo, não imagina o quanto custou a Clarice sua escrita. Enquanto trabalhava no que seria “Água Viva”, ela confessou aos amigos e até ao cabeleireiro – segundo relata Benjamin Moser em “Clarice: Uma Biografia – que “não sabia mais escrever”. Em carta para a amiga Olga Borelli, admitiu: “Tenho, Olga, de arranjar outra forma de escrever. Bem perto da verdade (qual?), mas não pessoal”.
Outra correspondência íntima teve papel decisivo na hora de superar a crise criativa. A escritora encontrou no filósofo José Américo Motta Pessanha um interlocutor ideal. Em carta delicada, Pessanha demonstrou apreço por “Objeto Gritante”, mas expôs seus temores diante de possíveis reações negativas e maldosas, sobretudo pela exposição da intimidade da escritora, a qual poderia parecer excessiva a algumas pessoas. O caderno de textos que completa esta edição da Rocco abre justamente com a carta escrita pelo filósofo, intervenção fundamental para a metamorfose do livro.
Clarice optou então por cortes radicais no texto e pela reescritura de muitas passagens. A protagonista, que era escritora, virou pintora. A operação rebatizou o livro, eliminou uma centena de páginas em comparação à primeira versão e permitiu enfim que a obra pudesse ser publicada.
Difícil classificar “Água Viva”, que radicaliza os já inovadores processos da autora. Sem enredo convencional, trata-se de uma novela híbrida em que diversos gêneros convivem em harmonia: poesia, teatro, diário, crônica, ensaio filosófico. Uma de suas frases mais citadas ganhou status de lema: “É-me. Sou-me. Tu te és”. Vale destacar o acerto do título, que lembra a fluidez de estilo que Clarice procurava no elemento vital da humanidade – que nutre, mas, em sua forma de animal marinho, também pode queimar.
Organizado e prefaciado pelo crítico e pesquisador Pedro Karp Vasquez e com concepção visual e projeto gráfico de Izabel Barreto, este volume de “Água Viva” apresenta, além da íntegra dos datiloscritos de “Objeto Gritante”, um caderno de ensaios. O primeiro deles, “As duas versões de ‘Água Viva’”, é de autoria do professor português naturalizado americano Alexandrino Severino – a quem Clarice confiou, em 1971, a primeira versão do livro para que fosse vertida ao inglês.
O segundo ensaio, da professora Sonia Roncador, retoma as questões da transmutação do texto literário e as aprofunda. A também professora Ana Clara Abrantes, de longa convivência com os originais de Clarice, comparece com duas contribuições: “‘Objeto Gritante’: uma confissão antiliterária” e “Escrita elástica”, sobre os arquivos da escritora. A série se completa com “‘Água Viva’: antilivro, gravura ou show encantado”, de Teresa Montero, idealizadora do passeio literário “O Rio de Clarice”.
Com este pequeno grande livro, Clarice Lispector conseguiu a façanha de descobrir um jeito transformador de escrever sobre si mesma. Um triunfo tão desconcertante que despertou assombro semelhante ao que a jovem autora provocara com sua estreia na ficção, o romance “Perto do Coração Selvagem”, de 1943. Um livro refundador. Da literatura e da própria Clarice.
*Release assinado por Alvaro Costa e Silva – jornalista
